William Silveira | Photo | Blog

A busca pelo personagem

November 15, 2015  •  Leave a Comment

 

A busca pelo personagem

 

Seja a fotografia uma representação fiel da realidade, uma imitação simples do real ou falácia produzida para conduzir o leitor na direção da intenção criativa de um fotógrafo, uma coisa é sempre comum na maioria das grandes imagens: o personagem.

            Assustados, valentes, pacíficos, indiferentes, agressivos, vivos ou mortos. Os travestis mexicanos de Bresson, os soldados de Capa, os meninos da periferia de André Liohn e os pantaneiros de Luciano Candisani emprestam sua própria imagem, seu bem mais precioso, dando sentido e extraindo o choro, o riso, o repúdio. Cada um desses personagens torna-se a ferramenta que dá sentido à história sem nem mesmo imaginar a imortalidade a que estará diretamente condicionado a partir daquele momento em diante.

            O personagem doa para a história a capacidade de ligação entre o plano e o contraplano, ligando o habitat à condição momentânea do ser vivo. Leva o leitor a uma viagem pela vida do outro, como um voyeur moderno nas telas de seus gadgets; o leitor decide, lê, projeta ou se transporta para aquela condição.

 

            Como buscar o personagem? Como usar uma pessoa, desconhecida ou não,  manipulando sua imagem para o bem da história? Vivemos um momento de questionamento, não sobre a ética de se usar ou não uma pessoa, personagem de uma história para informar ou situar tempo, espaço e ação, mas sim, o questionamento sobre o ato de fotografar um personagem nas ruas. Cada vez mais o fotógrafo pode ser interrogado pelo fotografado sobre o motivo daquele registro, muitas vezes de forma agressiva, imperativa. Cada vez mais editoras pedem para o autor o “termo de uso de imagem” dos personagens, vivos ou mortos, assinatura e números de documentos para garantir-se e isentar-se de futuros possíveis processos. Fotografar gente, como se fazia livremente nos anos 40, 50, 60 ou antes e depois até os anos 90, vem se tornando crime hediondo, como se o disparo da câmera deflagrasse projéteis mortais, ferindo fatalmente a imagem, a história pessoal e a honra daquela pessoa. Com isso, as histórias vêm perdendo o valor, o sabor. Sem sua maior ferramenta, as histórias estão empobrecendo e entrando em uma dinâmica decadência de conteúdo. Estão sendo contadas através de objetos, espaços vazios, ausência – talvez seja isso mesmo. Talvez a humanidade esteja se tornando isso: objetos, espaços vazios e ausência.

 

            Mas, enfim, prefiro não acreditar nesse caminho e coloco, sim, a câmera no rosto do personagem. Registro o plano e o contraplano com meu maior bem, o personagem. E se for interrogado de forma dura, lembrarei o conselho de Luiz Garrido, que hoje fotografa retratos, mas que fotografou a Paris efervescente de 1968. Ele disse: “A alça de sua câmera deve ser longa o suficiente para encaixar corpo e lente embaixo do braço. Só assim você pode correr tranquilamente com a câmera fotográfica”.

 

 

 

William Silveira é fotógrafo profissional e ministra cursos de fotografia desde 1998. Desde 2011 gerencia a área de NPS e Projetos Especiais na Nikon do Brasil, sendo responsável pelo suporte a fotógrafos profissionais e ações culturais e educacionais da empresa.

 

 

 

 


A relevância de uma imagem

August 13, 2015  •  Leave a Comment

Somos obrigados a ver fotografias a todo momento. Mesmo quem não gosta ou não se interessa é, inevitavelmente, submetido a uma quantidade nunca antes vista de imagens fotográficas. Ela está presente em tudo o que informa, vende, aluga, distrai ou transforma na sociedade. De jornais diários a obras de arte, passando por redes sociais, peças de decoração, classificado de imóveis e registros pessoais, a fotografia se configura como a base da comunicação moderna e não sobreviveremos sem ela.

Mas como entender a função de uma imagem?  No meu caso, é impossível não notar cada uma dessas fotografias, e meu maior exercício é separar o joio do trigo. Uma coisa de outra. Mas não me atrevo a apontar o que é ruim ou bom pois acho que não há uma única pessoa capacitada para julgar uma imagem em todos os níveis de interpretação, adequação, uso e relevância. O editor de um jornal julga de acordo com a pauta. O curador, de acordo com os critérios da exposição ou livro. Assim, cada um julga conforme o que lhe convém e de acordo com a direção que precisa dar às imagens.

Meu exercício diário é o de procurar um caminho mais coerente de analisar uma imagem ou um conjunto delas, e ao fazer isso, questiono-me sobre alguns aspectos:

  • Ela serve ao propósito primário, ou seja, informa, vende ou me passa a mensagem que deveria?
  • Qual a capacidade daquela imagem de transmitir uma mensagem clara ou subliminar? Ela conta uma história ou é meramente didática?
  • Ela é atemporal ou tem prazo de validade?
  • Qual será sua relevância daqui há 50 anos?

A partir disso entendo o que é fugaz. O que é notícia ou anúncio do dia e percebo a real importância de cada imagem ou ensaio e posso decidir com maior segurança, de acordo com meus critérios particulares, se estou diante de um simples apertar de botão ou se são obras que funcionarão como um recorte da sociedade atual, transmitindo seus valores, tendências, atos e hábitos. 

William Silveira

Agosto de 2015

Sochi, 2014Sochi, 2014NIKON EXPERIENCE LAS VEGAS 2014 Fotografia feita em Sochi, Russia, em Fevereiro de 2014.

Quem viveu a Guerra Fria nunca poderia imaginar um mercado, no interior da Russia, comercializando produtos que representam o "American way of life".

 

 


As imagens que não temos

June 23, 2015  •  Leave a Comment

 

 

O fotógrafo levanta sua câmera até a linha do olho, enquadra a cena e verifica a fotometria. No mesmo instante, uma senhora olha através da cortina da janela da sala e vê garotos brigando no caminho para a escola. Em outro local, o pai, com o filho a seu lado, levanta um fuzil e dispara duas rajadas comemorando a vitória sobre a milícia oponente. A jovem londrina corre, determinada, entre as pessoas que caminham em direção as suas próprias vidas. A criança vê o mar pela primeira vez. A aeromoça dá boas vindas ao último passageiro da fila, e a mãe vê, ao longe, o filho que volta das férias em outro país. Namorados, abraçados e totalmente alheios ao mundo, olham suas imagens refletidas no espelho e em silêncio juram seu amor, registrando a imagem daquele momento em suas retinas. Aqui tem um sorriso, uma lágrima ou um olhar de interesse. Noutro canto tem a dor, a solidão, a violência.

Diante da vida comum acontecendo aos olhos de todos, sempre que escuto ou leio que nunca se fotografou tanto na história, penso em tudo o que está acontecendo num único instante. São bilhões de pessoas interagindo, conspirando a favor do tempo e construindo histórias de alegria, dor, amor e ódio. Penso também em todas as imagens que não tomei para mim, que não fotografei (sim, pois fotografar é tomar para si, de forma abrupta,  aquele curto momento pertencente ao outro). Mas, estas imagens que jamais fotografei, eu as tenho gravadas na memória, no meu espírito. São imagens da infância, com as ruas do bairro e os moleques todos jogando futebol como se apenas aquilo importasse. São imagens dos amigos aprendendo a beber, fumar, namorar. Dos amores, dos parentes, das bobagens que fiz. Cenas importantes que nunca fotografei com uma câmera, mas que tenho gravadas, nítida e detalhada, em minha própria história.

Assim, para mim, com ou sem câmera estamos fotografando. Buscamos intrinsicamente o registro das imagens ao nosso redor a todo momento e fixamos aquilo que julgamos mais importante. Aquilo que nos traz com maior força o sentimento vivido – bom ou ruim. O melhor conjunto de câmera e lente está dentro de nós, mesmo para aqueles que não percebem isso.

 

 

William Silveira

22 de junho de 2015. São Paulo

London, 2012London, 2012

 

 

 

 


Quero ser fotógrafo

October 16, 2014  •  Leave a Comment

 

Como ser um fotógrafo profissional?

 

Não costumo falar de experiências pessoais e nem gosto de ler artigos que seguem esta linha, mas, dessa vez, abrirei uma exceção e narrarei minha experiência na fotografia. Nasci no interior de São Paulo, em Jundiaí, em uma família sem histórico em fotografia, mas me lembro de que quando era criança, me chamavam atenção aqueles homens ou mulheres na TV, fotografando eventos com suas câmeras fotográficas, flashes e lentes, como olimpíadas, copas do mundo, política e tudo que pudesse ser noticiado. Já um pouco mais velho, visitava uma loja de discos em uma galeria no centro da cidade para ver as fotos das capas dos discos. Não conhecia metade das bandas, mas gostava das imagens.

Sem saber, a paixão pela fotografia e a vontade de ser fotógrafo já estavam latentes em minha vida. Completei dezoito anos, fiz um curso, comprei uma câmera NIKON FE de segunda mão e comecei a fotografar para uma jornal de bairro. Mesmo feliz com as fotos no tablóide sensacionalista, tinha a perfeita noção de que uma câmera e um curso de dois meses não faziam de mim um fotógrafo profissional.

A partir daí fui ler, pesquisar e estudar. Por cerca de seis anos eu passei por cursos básicos, de revelação P&B de alto padrão, moda, retrato, fotojornalismo e outros. Quando não tinha dinheiro para comprar filme, apontava a câmera vazia, fazia o foco, a fotometria e disparava para registrar somente a experiência. Quando me senti confortável, passei a lecionar e, finalmente, a fotografar. Comecei a viver somente da renda dos meus trabalhos, mas sabia que ainda faltava muita coisa, que seria adquirido com a idade, como experiências de vida, viagens, amores, decepções, cultura geral, política e tudo que constrói uma pessoa.

Fotografamos utilizando toda nossa história, experiência de vida e conhecimento. Por isso, quem deseja ser fotógrafo deve estudar fotografia e comprar uma câmera. Com a câmera nas mãos, viaje, viva, ame, visite museus e sente-se diante das obras para observar. Converse com pessoas, leia sobre política, vá a exposições, fotografe e pare de “bater” ou “tirar” fotografias. Ainda, quando fizer um trabalho, saiba cobrar e entregar. Tenha seu próprio estilo, suas referências. Faça um plano de negócios e não deixe de fazer contas. Mas, principalmente, intitule-se fotógrafo profissional apenas quando viver da fotografia e puder entregar o prometido, com toda carga técnica, artística e cultural que puder.

Se fizer tudo isso, estará no caminho certo. E acredite, um caminho fantástico, compensador e claro, pouco fácil.

 

William Silveira

 

 

 

 

 

 


"Viva o digital"

October 16, 2014  •  Leave a Comment

 

Latas de cromo já meio oxidadas com a inscrição “For Professionals”. Tanques de revelação com seus pares de espirais metálicas e filtros “multigrade” com algumas provas impressas em 6x9cm, todos em uma mesma caixa de madeira. Um rolo de filme 120mm vencido em 2002 ainda sem uso.

Foi abrindo algumas caixas que estavam guardadas há alguns anos, empoeiradas e escondidas atrás de outros velhos itens analógicos, que percebi o quanto a fotografia mudou nos últimos quinze anos.

Da primeira fotografia, feita em 1826 pelo francês Niépce, e do primeiro Daguerreótipo, registrado por Louis Daguerre em 1837, até as impressionantes câmeras que faziam quatro ou seis fotos por segundo, a fotografia mudou bastante, mas mudou lentamente. No princípio, era uma arte menor, que registrava a realidade e estava restrita aos retratos de família. Com as inovações tecnológicas que produziram câmeras menores e processos menos complexos para revelação, abriu-se o leque de situações que poderiam ser fotografadas: guerras, manifestações, o cotidiano das pessoas nas cidades, o indivíduo comum levando suas vidas. Hoje, quando olhamos para a história do mundo, vemos imagens estáticas, fotografias. As mudanças foram tão significativas, que hoje percebemos que foi a fotografia, a tal arte menor, quem ajudou a contar a nossa história recente.

A fotografia continuou se popularizando. Lembro-me da pequena câmera “rangefinder” do meu tio, nos anos 80. Apesar de não ser profissional, ele a tratava como item da família e ninguém ousava fotografar com ela; claro que tentei.

Nos anos 90, aprendi a fotografar no “antigo” processo, analógico. Depois vi a revolução digital, que trouxe novos termos, como AWB, megapixel, sensor de imagem, CCD e CMOS, ao restrito vocabulário da fotografia. Uma nova história estava começando. O salto tecnológico foi gigantesco e criou um abismo entre o tradicional e o moderno. Tudo era novo e muitos fotógrafos profissionais deixaram de lado seu trabalho por não aceitarem ou não entenderem o novo processo.

A fotografia transformou-se. As câmeras diminuíram, ficaram mais acessíveis, fáceis de usar e até se fundiram com outros aparelhos, como os telefones celulares, também filhos da revolução tecnológica, digital. 

A linguagem baseada em imagem ganhou impulso. A nova fotografia, aliada à também inovadora Internet, deu força a à imagem. A forma de comunicar mudou. Nunca se fotografou tanto na história da humanidade. Nunca a imagem estática teve tanta relevância. A imagem seduz, vende, informa, registra o cotidiano, expõe o que os olhos veem no mundo todo, e tudo pode ser online. A fotografia agora não é mais restrita a poucos. Ela é popular e está nas mãos de todos.

Por um minuto, abrindo aquelas minhas caixas analógicas, senti um pouco de saudade, mas confesso que o sentimento passou rápido. A única coisa que perdemos com a fotografia digital foi aquela reza para cada trabalho feito em filme que aguardava a revelação.

 

 

 

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